quinta-feira, março 25, 2010

Opinião de... Samuel Silva

Umas eleições muito vimaranenses

O Vitória é mais do que a maior instituição de Guimarães. É também o reflexo mais fiel das idiossincrasias próprias de um concelho. E todo o recente processo eleitoral para o nosso clube voltou a mostrar como são os vimaranenses e vitorianos.
Aquilo a que assistimos durante a campanha não foi novidade para quem conhece Guimarães. À frente das duas listas tínhamos dois homens com dinheiro. Para os vitorianos e vimaranenses o que importa é, antes de mais, o capital económico. Mesmo que isso implique deixar de lado outro tipo de qualidades.

E isto ajuda a perceber a péssima imagem do clube que foi passada em todos os debates mantidos entre os dois candidatos à presidência. Ninguém dúvida de que isso não aconteceria se a lista A fosse liderada por Luís Cirilo e a Lista B por Júlio Mendes, por exemplo. O que sobrava em capital cultural aos dois candidatos a vice faltava-lhes em dinheiro.
Aliás, o ex-vereador da câmara de Guimarães é uma indiscutível mais-valia para o nosso clube e a melhor garantia de que a mudança de rumo de que a liderança de Emílio Macedo da Silva tão urgentemente necessita pode, de facto, ter um indutor.

Outra característica vimaranense que observamos nas eleições foi o estrutural conservadorismo da população. Não é por acaso que nenhum presidente do Vitória foi afastado nas urnas ao longo da sua história. Pimenta Machado já era publicamente criticado (até no estádio) e ainda assim foi reconduzido para mais um mandato.

Na política, temos uma câmara liderada há 20 anos pelo mesmo presidente, na qual a única mudança digna de registo foi motivada por uma particularidade muito específica (A vitória de António Xavier em ano de boicote eleitoral em Vizela). O mesmo vale para as juntas de freguesia do concelho.

E, se analisarmos os resultados eleitorais, vemos que Emílio Macedo da Silva ganhou com margem mais folgada nas primeiras mesas, onde votam precisamente os eleitores mais antigos. Aliás, se os resultados das suas primeiras meses se mantivessem, em proporção, nas restantes, o triunfo da Lista B teria sido ainda mais claro.

É óbvio ainda que, a estas questões estruturais, se juntam outros factores que ajudam a explicar o triunfo da lista B. E essencialmente o que aconteceu foi que o discurso de Pinto Brasil não agradou nem convenceu. O candidato nunca conseguiu contornar o facto de ser um sócio recente e as conotações com outros emblemas. Aliás, o anúncio de um acordo com o FC Porto nas últimas horas da campanha parece-me ter prejudicado ainda mais a sua votação final.

A isto juntamos uma aparente satisfação dos vitorianos com os três anos de mandato de Emílio Macedo, que valorizaram mais os méritos desportivos da subida e do terceiro lugar do que as trapalhadas em que a direcção se envolveu, nomeadamente na segunda metade do mandato. O resultado é o que conhecemos: Macedo da Silva continua a ser presidente do Vitória. Espero que saiba justificar o mandato que lhe foi inequivocamente atribuído pelos vitorianos.

Post scriptum: Manifestei, em tempo, as minhas reservas quanto à contratação do Nuno Coelho como técnico do voleibol do Vitória. Os salários em atraso não são, a meu ver, a única explicação para a época pouco conseguida: O técnico (uma vez mais) não percebeu a dimensão do clube que liderava. O modelo preconizado pela direcção, a crise financeira e a temporada que agora acaba fazem-me temer pelo futuro da modalidade no nosso clube. Oxalá esteja enganado.


Por Samuel Silva
http://dorisoedoesquecimento.blogspot.com
http://colinasagrada.blogspot.com

13 Comentários:

Vimaranes disse...

A percentagem de 70% da Lista B na mesa nº1, prova um pouco isso do que disseste. Somos, vimaranenses (nos excelentes dois exemplos que citaste) muito pouco crentes nas mudanças. Quer por culpa do conservadorismo dos vitorianos mais antigos, quer por culpa das opções, obviamente. Aliás, sempre se soube que as eleições do clube são decididas pelos sócios de números mais baixos, e isso ficou evidente no facto de termos cerca de 2400 votantes na duas primeiras mesas, ou seja, quase metade do total. Daí que as alternativas têm sempre de apontar armas aos menos conservadores e foi a esses que manifestamente a Lista A não terá convencido, tendo em conta, principalmente, os números da abstenção.
E esse conservadorismo traz um problema, que é a eternização dos líderes.

25/3/10 16:11
lafuente disse...

Concordo com o que se diz neste post acerca da questão eleitoral.Na questão do volei nao concordo no facto do Nuno Coelho ter sido um timoneiro que não esteve a altura.Pareceu-me até que foi o menos cdulpado da época menos bem conseguida.

25/3/10 16:58
benachour10 disse...

caro vimaranes em que mesa votaste?

25/3/10 18:41
Vimaranes disse...

Mesa 2. Faço parte do grupo dos ditos conservadores, se bem que neste caso até nem o era :).

25/3/10 18:42
benachour10 disse...

como tu penso que muitos vitorianos com vinte e tal anos de filiaçao votaram no minimo na mesa 2 e mais não os considero conservadores

25/3/10 18:46
Vimaranes disse...

É apenas uma generalização. Naturalmente, que haverá de tudo em todas as mesas. Mas por norma, os sócios mais antigos são mais conservadores, menos disponíveis para as mudanças. Aliás, isso era notório como o Samuel referiu nas eleições do Pimenta. E isso nem sequer é um defeito ou uma virtude, especial, terá sempre vantagens e desvantagens. Mas a história das votações também o indica. Sendo que também são aqueles que aparecem em grande número nestes momentos de decisão.

25/3/10 18:52
Jaime disse...

Concordo em quase tudo o que Samuel disse. No entanto, é preciso rectificar : O António Xavier não ganhou a Camara, por causa do boicote de Vizela, mas sim pelo apoio declarado de Pimenta Machada.No ano do boicote de Vizela quem ganhou foi o Manuel Ferreira.
Não estou nada de acordo com a tentativa de associar conservadorismo a sócios mais antigos. Estes sócios, nos quais me incluo, já agora votei na mesa 2 são os sócios que têm uma ligação afectiva mais forte ao clube, pelo que, perante a alternativa que se colocava, nomeadamente, a nivel do cabeça da lista, não hesitaram em votar no seguro.

25/3/10 19:07
jose disse...

"...E todo o recente processo eleitoral para o nosso clube voltou a mostrar como são os vimaranenses e vitorianos..."
Samuel, discordo completamente com esta tua afirmação...50% de abstenções, em meu entender, não dignifica em nada a GRANDEZA do "NOSSO VITÓRIA"...
Merecíamos no mínimo 100% dos sócios presentes nas urnas...Relembro, que o voto em branco é um voto útil,em minha opinião...quanto mais não fosse, como uma chamada de atenção SÉRIA aos senhores que se candidataram...
Quem não foi ás urnas, não tem o direito, de criticar o que é que seja...
Tenho dito...

José Ferreira

25/3/10 23:44
jose disse...

"...E todo o recente processo eleitoral para o nosso clube voltou a mostrar como são os vimaranenses e vitorianos..."
Samuel, discordo completamente com esta tua afirmação...50% de abstenções, em meu entender, não dignifica em nada a GRANDEZA do "NOSSO VITÓRIA"...
Merecíamos no mínimo 100% dos sócios presentes nas urnas...Relembro, que o voto em branco é um voto útil,em minha opinião...quanto mais não fosse, como uma chamada de atenção SÉRIA aos senhores que se candidataram...
Quem não foi ás urnas, não tem o direito, de criticar o que é que seja...
Tenho dito...

José Ferreira

25/3/10 23:45
João Carvalho disse...

caro samuel, 100% de acordo na questão do vólei.
Quanto ao conservadorismo, creio que ele ficou bem patente na votação da mesa 1. Mas não explica tudo. Creio que ainda falta uma certa audácia aos vitorianos para darmos aquele passo que separa a mediocridade da grandiosidade. Para sermos os " melhores adeptos do País" não basta ir aos jogos e apoiar muito, tambem é preciso coragem para arriscar e tomar-mos as melhores decisões para o clube. e aí falhamos um pouco.

26/3/10 12:01
Barrica disse...

Esta é infelizmente a realidade do futebol actualmente. Já não basta perceber de futebol, ser-se competente, e amar-se um clube, hoje em dia no futebol como em tudo na vida é o peso do dinheiro que fala mais alto. Vão perdendo os clubes em paixão, dedicação e alguma sabedoria. Mas infelizmente temos de nos adaptar aos novos tempos e o Vitória não poderá, infelizmente, ser a excepção. Por isso esperemos que vá havendo sempre listas que tenham esses verdadeiros vitorianos. Pois uma candidatura é muito mais que um candidato é toda uma equipa e é preciso ter essa consciência.

26/3/10 16:03
José Manuel (Nelo) disse...

Samuel, discordo totalmente de que “para os vitorianos e vimaranenses o que importa é, antes de mais, o capital económico. Mesmo que isso implique deixar de lado outro tipo de qualidades.”

1.º - Eu votei lista A, e não foi por achar que PB tem mais dinheiro que EMS. Que tem empresas de maior dimensão, sei que tem, porque estudei o assunto, e publiquei-o repetidamente. Mais, na actual crise, qualquer funcionário público tem mais poupança que qualquer grande empresário, porque andam a “enterrar” nas empresas o que a banca retirou do mercado financeiro em volumes de crédito não renovado e não renegociado. Portanto, o meu voto em PB não era no “milionário” que se apregoava: era no modelo de gestão que se defendia, e no vitorianismo que saltava à vista. OS filhos de PB vão ver os jogos do VSC fora com as claques, conhecem bem o VSC e a sua cultura, e PB deu-me sinais de, apesar de ser sócio recente, estar por dentro dessas realidades. Reconheço que nos meios mediáticos isso não transpareceu. Mas no contacto pessoal, isso notava-se.

2.º - Se há erro que eu mais aponto às recentes direcções do VSC é o de impedirem o livre acesso dos sócios às candidaturas para os órgãos sociais. Porque uma gestão baseada no endividamento obriga a mais capacidade de endividamento das direcções seguintes, caso contrário não há fundo de maneio e tesouraria que sustente o quotidiano do clube. E como os vitorianos são conscientes, não se vão candidatar a um cargo sabendo de antemão que não têm o perfil desejado pela banca para serem avalistas aos empréstimos necessários para a gestão corrente do VSC.

3.º - “(…) outros factores que ajudam a explicar o triunfo da lista B. E essencialmente o que aconteceu foi que o discurso de Pinto Brasil não agradou nem convenceu. O candidato nunca conseguiu contornar o facto de ser um sócio recente e as conotações com outros emblemas.” Samuel, queres então defender a tese de que os Vitorianos “engoliram” o benfiquismo de membros da lista B ? De todos os Vices de EMS, excepto Baltar, terem número de sócio mais alto que o próprio EMS (embora mais baixo que o teu, caro Samuel (momento de humor falhado…)) ?

Um Abraço
ZM

27/3/10 10:24
luis cirilo disse...

Este post é curioso.
Porque assenta num excelente artigo do Samuel Silva com o qual estou bastante,mas não totalmente, de acordo.
E depois tem um conjunto de comentários muito interessantes e que promovem um debate tantas vezes ausente da blogosfera vitoriana.
E até das próprias eleições.
Aí um pouco por falta de quem quisesse discutir verdadeiramente o assunto por parte da Lista B.
Porque o que se discute neste artigo do Samuel e nos comentários subsequentes é o modele de gestão para o clube.
Que tradicionalmente assenta no primado do dinheiro sobre outros factores eventualmente mais importantes para definir uma linha de rumo.
Nomeadamente as ideias, a cultura de clube, o projecto de médio prazo.
Pessoalmente entendo que este modelo está esgotado.
Já o estava aliás no tempo final de Pimenta Machado e de lá para cá nada mudou.
Porque assenta numa filosofia de continuo correr atrás do prejuizo!
Ou seja ao elaborar-se um orçamento já se sabe que vai ser deficitário (em valores de crescimento continuo ano após ano)e há que arranjar-se receitas para cobrir o déficit.
Seja vendendo jogadores quase ao desbarato (quando há é claro),seja antecipando receitas televisivas e com isso comprometendo os orçamentos vindouros,seja na busca de negócios de ocasião como o das "Águas do Ave".
Quando nada disso é possivel então hipoteca-se património!
É assim que tem sido nos ultimos dez anos.
E o Vitória entrou num circulo vicioso,com passivos a aumentarem inevitavelmente,sem se vislumbrar saída adequada.
Neste modelo de gestão não temos futuro.
Daí ser importante partir para outro.
SAD?
Não acredito.
Seria mais uma panaceia para resolver os problemas de curto prazo,permitiria talvez dois anos de investimento maior na equipa de futebol,mas no médio/longo prazo tudo ficaria na mesma.
Se as SAD dos três chamados grandes são um fracasso financeiro a nossa sê-lo-ia igualmente como é óbvio.
Pela simples razão de que a Bolsa se rege por regras objectivas e com enorme preferência por negócios pautados pela seriedade que dá consistência ao valor das acções.
Acontece que o futebol português não é um negócio sério e daí as acções dos clubes nada valerem.
Então que modelo ?
Ou está o Vitória condenado a penar em busca de dirigentes ricos que possam avalizar financiamentos ?
Começo pela segunda pergunta.
Neste momento está.
E assim vai continuar enquanto um desses presidentes ricos não resolver tornar-se num rico presidente e lançar o clube no caminho de um desenvolvimento sustentado.
E aí cabe a resposta á primeira questão.
O modelo tem de passar por outros parâmetros.
Gestão profissional e por objectivos.
Captação de novas fontes de receitas através de uma politica de marketing agressivo e direccionado para parceiros de prestigio.
Aposta fortissima na formação de talentos que permitam ao clube ser autosuficiente num prazo de dez anos.
Autosuficiente na constituição do plantel e exportador de talentos e captação das consequentes receitas.
Acordo com um grande clube estrangeiro para intercâmbio de jogadores dentro de regras claramente fixadas.
Merchandising e lojas que garantam uma percentagem importante do Orçamento do clube.
Procura de parceiros/investidores em mercados com apetência para o futebol.
Nomeadamente no golfo pérsico e na Ásia.
Constituição da Fundação Vitória de Guimarães para aceder a fundos comunitários,incentivar politicas de mecenato e gerir o património imobiliário do clube.
(Este ponto do programa da Lista A nunca foi questionado por ninguém !
Nem pelos jornalistas,nem pelos sócios nas sessões de esclarecimento,nem sequer pelo candidato da Lista B nos debates!
E era uma âncora do projecto da Lista A)
São apenas algumas ideias mas nelas assenta,do meu ponto de vista, a tal mudança de modelo de gestão que é cada vez mais urgente.
Peço desculpa pelo tamanho do comentário mas o assunto é interessante.
E quando é discutido com elevação, como neste post e comentários,acho que vale a pena desenvolvê-lo.

30/3/10 00:49